sábado

A Dona Maria Alice vive numa casa muito bonita num bairro de uma cidade. A sua varanda está cheia de flores de cores diferentes. Gosto de pensar nessas flores como os mexericos que ela sabe. Cada flor é um mexerico que, ou a Dona Aurora, ou a Menina Fátima lhe disse. A Dona Maria Alice diz que está a ficar velha e que a sua memória esta cada vez pior, mas ela nunca esquece o que lhe dizem acerca dos outros. Ela gosta de falar da vida dos outros, uma vez que está sozinha e não tem vida.
Mas diz-se que, quando a Dona Maria Alice era nova, era tão bonita como as flores da sua varanda, e tinha muitos rapazes a cortejá-la. Um deles era o Menino João, muito bem-parecido, simpático e de boas famílias. “Uma jóia de menino!”, diria agora a Menina Fátima. O Menino João estava loucamente apaixonado pela Menina Maria Alice, e queria casar com ela. Mas a Menina Maria Alice não estava para aí virada. Ela queria ser uma cantora, ela queria ganhar o Festival da Canção e queria ficar famosa. Dizia que tinha uma voz de rouxinol e que queria cantar poemas. O problema foi que as coisas não correram muito bem. Foi a Lisboa, convencida que ia ficar famosa, e voltou ao bairro tão famosa como era antes de sair dele.
Mas a Menina Maria Alice não quis saber, e decidiu que afinal, ela não queria cantar, porque queria casar e ser feliz com muitos filhos, netos e, quem sabe, até bisnetos. Queria ter uma herdade muito grande no Alentejo, e queria aparecer nas revistas. E então, casou-se com o Menino João. Foi um casamento muito bonito. Ele amava-a muito, e ela amava-o muito. Tinham dinheiro, saúde, amor. Quando compraram uma herdade no Alentejo, descobriram que a Menina Maria Alice estava grávida. Compraram as roupinhas para o bebé, a mobília, e encheram os seus corações com esperança. E quando o bebé nasceu, descobriram que a morte já o tinha levado, quando estava ainda na barriga da mãe. E cinco semanas depois, morreu também o Menino João, por uma razão que ainda hoje não se sabe qual é.
A Dona Maria Alice pôs-se de luto, e nunca mais vestiu cor na vida. Comprou uma casa num bairro, com uma varanda espaçosa, onde pudesse colocar algumas flores coloridas, a ultima réstia de felicidade que havia nela, e onde pudesse coscuvilhar com a Dona Aurora e com a Menina Fátima. E onde pudesse esperar, lentamente, o momento onde fosse enterrada com o seu marido e com o seu filho. E nesse momento, tinha a certeza que as suas flores iriam murchar, porque ela já não precisava de mexericos, porque tinha encontrado na morte a sua vida, uma flor mais colorida que as outras, quase como um amor-perfeito.

Grande ©

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força, contibui para a minha ainda não existente popularidade online.